9 de setembro de 2011

Conto Teen - Pelo Desejo de Companhia

Olá, Teens!  A Sexta-feira Fantástica desta semana traz até vocês um incrível conto, do escritor Eduardo Shinnother, natural do Rio de Janeiro, e radicado em Santa Catarina. “Pelo Desejo de Companhia” conta a história de uma sombria amizade, e as consequências que o desejo por companhia pode causar...

Se você gosta de contos fantásticos, e sobrenaturais, não perca o conto na íntegra!

Boa leitura!

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U M

Naquela época eu estava tão desiludido com a vida e com o mundo que a minha rotina já não me afetava. Passei a acreditar em carmas e nas tais linhas que dizem interligar o sofrimento de uma pessoa a outra. Hoje compreendo bem melhor as coisas, porque tenho uma companhia que me ensinou várias coisas. Juntos fazemos coisas muito interessantes, coisas que hoje em dia, me permitem ver tudo de uma maneira diferente. Mas naquela época, com meros dezessete anos não era de espantar que eu estivesse me sentindo dessa forma.

O despertador para a escola sempre tocava, fielmente às seis e vinte, todas as manhãs. Sempre que isso acontecia eu estava sentado na cama, pronto para ir para a escola. Nem mesmo no inverno dependi dele para acordar. Sem reclamar eu era uma marionete das situações, do cotidiano e da rotina.

Minha mãe, Suene costumava me chamar sempre às seis e trinta e cinco para o café. Porém, antes de ter que ouvi-la dizer "meninos desçam para o café" saía do quarto e descia as escadas de madeira ao mesmo tempo em que arrastava a mão pelo corrimão cor mogno. Enquanto tomava chocolate com leite, pão com alguma coisa e frutas, minha mãe geralmente atarefava-se com outras coisas. Havia acordado mais cedo e já havia tomado seu café. Aquele era os últimos momentos que ela tinha para arrumar suas coisas antes de ir para seu emprego de corretora de imóveis. Morávamos um pouco longe do centro da cidade, cerca de quinze quilômetros. Ela decidiu se mudar para cá, para a área rural da cidade havia dois meses. Morávamos em um vilarejo no meio do mato, aos pés de uma montanha, nos confins do nada. Meu irmão Breno se adaptou muito melhor à essa mudança do que eu. Para mim as coisas pareciam ter ficado congeladas e a única coisa que me fazia bem era o frio. Eu simplesmente amava estar naquele lugar quando a temperatura caía.

Íamos todos os dias a pé para a escola, meu irmão e eu. No caminho ele sempre se perdia no meio de companhias femininas e no meio dos rapazes com quem gostava de conversar sobre várias coisas. Ele fez o que pode para que me enturmar e eu também, na medida do possível conversei com as pessoas, mas nunca fui do tipo tagarela. Até me esforcei para se aproximar dos mesmos amigos do meu irmão, mas não forcei demais, achei que dois meses era muito pouco tempo para chamar alguém de amigo. Com exceção de uma pessoa que considerei especial.

Sentei-me na cadeira e a primeira coisa que fiz foi olhar para o lado e perceber que a cadeira estava vazia. Anne, a única menina com a qual iniciei algo que poderia ser chamado laço de amizade, havia faltado. Suas faltas eram frequentes e aquela em especial, alertou-me. Senti - e desejei não ter sentido - que deveria me preocupar. Anne era a menina mais bonita da sala. Possuía cabelos loiros muito claros e um par de olhos azuis que causaria inveja até mesmo em um diamante. Sua pele era lisa e sensível e sua voz era tão suave e calma quanto. Meu irmão Breno era apaixonado por ela. Pelo menos era o que ela dizia. Nesses dois meses ele havia feito mil peripécias para encantá-la, mas ela nunca lhe deu muita atenção, Anne era muito parecida comigo. Encantava as pessoas com sua beleza externa, mas parecia oca. Parecia ter escondido o seu eu dentro de si, em algum lugar onde nada poderia chegar e ninguém poderia enxergar. Breno tinha um pouco de raiva de mim por ter conseguido se aproximar dela sendo um paspalho como ele me chama, enquanto ele sendo mais extrovertido nada conseguiu. Com a ausência de Anne, a aula demorou um pouco mais a passar, mas ao ingressar a leitura de um livro sobre psicologia e hipnose, tudo passou em velocidade normal.

Retornei para casa embaixo de chuva, mas não me molhei graças ao guarda chuva que levei quando saí de casa. Breno havia ficado para trás por alguma razão.

Entrei e mesmo sabendo que bastaria pegar um pouco de comida pronta na geladeira e esquentá-la no microondas para almoçar, preferi não comer. Subi para o meu quarto e me despi do uniforme molhado que me agoniava. A casa de madeira onde morávamos tinha dois andares e era um tanto quanto estreita. Nos andares de baixo havia somente o quarto da mãe, a cozinha e o banheiro. Nos andares de cima, o meu quarto e o do meu irmão. Era rotina eu não almoçar, não no horário do almoço pelo menos. Quando sua mãe trabalha o dia todo fora, você pode dar ao luxo de programar esse tipo de coisas por conta própria. Abri as duas janelas do quarto para o ar frio entrar. A chuva havia diminuído, mas o horizonte permanecia branco e aquilo me apertou o coração. Da janela do meu quarto eu podia ver a casa de Anne. De dia pelo menos, a noite, como nenhuma luz se acendia ela tornava-se invisível no meio da escuridão que envolvia as encostas da montanha, onde ela se situava. Cuidei das tarefas de casa e passei uma cópia das matérias do dia para uma folha avulsa com comentários pessoais sobre a explicação dos professores e a data de entrega dos próximos trabalhos.

Enquanto aguardava o meu irmão sem pressa retornar para casa, procurei livros para ler. Eles ajudavam muito a controlar minha ansiedade e eu os amava por isso. Eram quase uma hora da tarde quando ele retornou e eu já estava sem paciência. Um segundo depois de ouvi-lo abrir a porta da cozinha, o ouvi subindo as escadas desesperadamente. Coloquei dentro da mochila o livro que estava lendo e as folhas avulsas com a matéria da escola e tranquei a porta do quarto, ele estava no último degrau quando me viu fechar a porta.

- Onde está indo? - perguntou ele.

Olhei-o de cima abaixo antes de responder. Seus cabelos pingavam, assim como toda a sua roupa. Seus olhos verdes me olhavam de modo preocupado enquanto eu retribua essa expressão com total indiferença.

- Vou sair - respondi secamente passando por ele.

Breno segurou-me pelo braço, o que me irritou.

- Vai à casa de Anne?

- Não quero ouvir suas lamentações, não vou te ajudar com ela, esquece.

- Ok, como quiser - respondeu ele soltando-me – você vai mesmo à casa de Anne? Ou vai para algum lugar estranho ler os livros do papai?

- Eu nasci antes de você - respondi enquanto descia as escadas - sou o mais velho, não te devo satisfações.

Sai de casa com o guarda chuva na mão, porém, não armado. A chuva estava fina e eu gostava quando ela tocava meu rosto e quando se acumulava no meu cabelo o suficiente para pingar nos meus olhos.

A casa de Anne, para onde eu estava me dirigindo ficava a aproximadamente meia hora de distância da minha casa. Era o lugar mais longe que alguém poderia ir a pé morando naquele vilarejo. A casa da família Hillebrand é a que ficava mais afastada do resto das outras e a mais próxima da encosta da montanha. Em minha opinião era a casa mais linda que já havia visto. Ela certeza havia abrigado gerações da família Hillebrand, pois sua arquitetura não pertencia a época atual. Fora construída com blocos de mármore que agora envelhecidos lhe davam um ar de castelo da idade média. Suas janelas eram longas, estreitas e tinham arcos de forma perfeita. Apesar da beleza que a casa conferia aos olhos de quem a visse, provinha de uma simplicidade incrível o que certamente não diminua o meu fascínio por ela.

No meio do caminho passei por uma estrada, quase completamente fechada pelo mato, que me trouxe recordações dos momentos em que passei com Anne e da razão pela qual nos aproximamos. Perdido nessas lembranças, eu cheguei a parar enquanto minha mente viajava para longe de meu corpo, até que a chuva aumentou despertando-me e eu retomei meu caminho até a casa de Anne.

Quando finalmente cheguei perto da casa bateu em mim a vontade de correr. Queria chegar lá o mais rápido possível. Assim que me aproximei da grande porta de madeira antiga bati nela com a aldrava para depois colocar as mãos no joelho e descansar. Esperei um minuto e meio antes de pensar em bater a aldrava novamente, mas não foi preciso pois Miranda, a empregada da casa veio me atender.

- Savas, que bom vê-lo - disse ela gentilmente.

Miranda era magra feito um palito e branca feito um papel. Com seu costumeiro vestido preto básico. Seus olhos eram meio saltados para fora e às vezes davam um pouco de medo, mas depois de papear um pouco com ela qualquer pessoa notava que Miranda era uma ótima pessoa. Porém, a expressão em seu também não havia mudado desde a ultima vez que havia visto. Ela assim como todos os membros da família Hillebrand parecia ter a tristeza incrustada na personalidade. O diferencial em Miranda é que ao ver alguém ela fazia de tudo para parecer feliz. Sua simpatia ajudava, mas para mim que tinha capacidade de notar pequenas coisas nas atitudes das pessoas percebi logo.

- Boa tarde Miranda, espero não ter vindo em má hora. Não tive como avisar que viria - falei.

- Não, de modo algum. Veio para ver Anne, imagino.

- Sim, ela está?

- A menina Anne não está.

- Está tudo bem com ela? - perguntei afoito.

- Oh sim, não se preocupe. Ela não se sentiu muito bem essa noite, nos deu um susto. Decidi deixá-la descansar ao invés de mandá-la para a escola.

- O que aconteceu com ela?

- Nada demais - ao dizer isso a feição de Miranda tornou-se mais restrita - ela teve um pouco de dificuldade para dormir, mas acredito que tenha sido por causa do cão dela.

- Ah sim... - balbuciei - Ela tardará a voltar?

- Se desejar entrar e aguardar aqui dentro, és bem vindo. Porém, imagino que desejará ir ao encontro da menina Anne.

- Onde ela está?

- Eu não queria que ela saísse de casa, mas você sabe como ela pode ser insistente. Ela quis sair sozinha acredita?! Bem, eu deixei que ela fosse, mas mandei meu marido, Ben ficar de olho nela.

Ben era apelido de Benjamin.

- Onde ela está?

- Hoje é o aniversário de um mês da morte do Lobo, Anne foi até o cemitério vê-lo.

- Ótimo, estou indo até lá então.

D O I S

Lobo era o nome do cachorro de Anne. Do cachorro que ela tinha antes que ele morresse há um mês.

Despedi-me de Miranda e antes que ela pudesse fechar a porta corri de volta para a estrada de barro cheia de poças d'água que me levaria ao cemitério onde juntos, eu e Anne havíamos enterrado Lobo.

Lobo era um robusto Rusky Siberiano e assim como seu nome sugeria, pareia um lobo. Tinha pelo branco e leves manchas cinzentas nas costas e nas patas. Antes de mim, era a única criatura viva além dos parentes e dos professores que se aproximavam de Anne com facilidade. Pode-se dizer que por causa de seu cão que Anne e eu nos aproximamos.

Lobo é era um animal estranhamente comportado e obediente. Vivia com Anne desde que ela era criança e ela quem o educou. Ele a acompanhava até a escola e esperava sentado do lado de fora até que ela saísse, aproximando-se da mesma somente na hora do recreio. Certa vez, logo que chegamos Breno foi mordido por ele a primeira vez que se aproximou de Anne, eu estava longe embaixo da árvore lendo mas me lembro da cena. Foi divertido. Lobo era como um guardião de Anne, um incrível e poderoso - e assustador - guardião.

Porém, quinze dias depois que nos mudamos para cá Lobo tentou me atacar. Eu estava sentado em um banquinho perto da fonte de cimento no pátio da escola quando ele saiu de perto de Anne e correu na minha direção para me morder depois de me encarar por alguns instantes. Ainda tenho as cicatrizes daqueles dentes ferozes chacoalhando meu braço esquerdo. A raiva de Lobo contra mim era inexplicável, mas um grito de Anne fora o suficiente para fazê-lo se afastar. Aquele foi o primeiro dia que visitei a bela casa da família Hillebrand. Preocupada, Anne me levou até lá para que meus ferimentos fossem tratados e Miranda cuidou muito bem deles. Depois daquilo, Lobo jamais rosnou para mim e sempre permitia que me aproximasse de Anne sem levantar as orelhas desconfiado, como sempre fazia.

Para total infortúnio do cão, sua vida se extinguiu em pouco mais que uma semana depois do que aconteceu. Dia após dia ele começou a ficar desanimado e triste. Alimentava-se cada vez menos, até que em uma manhã acompanhou Anne pela última vez até a escola. Quando saímos para retornar para casa ele estava morto. Foi horrível. Anne sofreu muito com a perda de Lobo e se ela já tinha seus motivos pessoais para não ser a menina mais alegre e extrovertida, a partir daquele dia ela tinha um motivo a mais.

A importância de Lobo para a família Hillebrand era tão grande, que ele foi enterrado em um dos jazigos da família, como uma pessoa normal. Construíram uma lápide de mármore e Anne mandou que colocassem "Lobo Hillebrand - Fiel Guardião e Fiel Amigo". Estive ao lado dela todo o tempo, pois encontramos Lobo juntos e posteriormente o enterramos juntos também.

Desde então Anne e eu ficamos próximos e mesmo quando não estamos com vontade de falar nada um para o outro - o que as vezes acontece - estamos um ao lado do outro, dividindo nossa tristeza e a nossa dificuldade de entender o mundo e como ele funciona, mesmo que de um modo não verbal.

Finalmente, depois de me apressar ao máximo cheguei à rua estreita onde os matos já tomavam conta do caminho e comecei atravessá-la. Ao fim desta, estaria o cemitério. Pouco a pouco a vegetação ia se afastando e inesperadamente, de uma vista cheio de verde onde o mato cobria tudo o que podia a natureza se transformava. O verde tava lugar ao marrom das folhas secas que se amontoavam no chão, por todos os lados. As árvores pareciam viver em um eterno e cruel outono que não oferecia a elas e beleza e vitalidade trazida pelas novas folhas. Mesmo o mato era seco e sem cor. Tudo ali parecia de alguma forma, morto, inclusive Anne que estava sentada em um banco com os ombros baixos e olhar fixo nas lápides à sua frente, não parecia mais viva do que nada ali.

Observei-a de longe. Ela não havia me notado ainda e aproveitei-me disso para deslumbrá-la. A beleza daquela menina era algo que merecia aquilo. Mesmo triste e exalando infelicidade, Anne ainda era o exemplo da beleza mais perfeita que eu poderia sonhar em contemplar. E ela estava lá, as vezes mexia as pernas para frente e para trás como se estivesse em um balanço, e frequentemente mexia os lábios. Parava uns momentos e depois mexia novamente... parecia estar... conversando.

Fiz barulho propositalmente enquanto caminhava e ela então me viu. Olhei para todos os lados, não havia ninguém conversando com ela ali. Imaginei ser Ben tentando convencê-la a retornar para casa, mas não era. Se Ben estivesse por ali, estava tão bem escondido que somente um cão treinado o acharia. Mil coisas passaram por minha mente criativa, mas quando Anne se levantou e acenou para mim com um sorriso modesto, tudo sumiu.

- Savas! - disse ela abraçando-me.

Sua boca e nariz gelados tocaram meu pescoço. Senti a respiração dela tentando sentir o cheiro que havia em mim.

- Que bom que veio - disse segurando minhas mãos - pensei em lhe procurar depois que saísse daqui.

- Sério?

- Claro! Mas preferi ficar mais um pouco. Miranda não me deixaria voltar tão cedo e além disso, eu sabia que você viria até mim.

Ao ouvir aquilo, sorri meio desconcertado. A expressão em Anne havia mudado, quando estamos juntos, sempre muda. Tanto a dela quanto a minha. Fazíamos bem um ao outro, amigos especiais são assim.

- Como podia ter tanta certeza?

- Você é o garoto mais gentil e leal que já conheci. Obrigado por ter vindo, vem sente aqui comigo.

Deixei que ela me conduzisse enquanto puxava a minha mão, até o banco onde sentamos.

- Está tudo bem? Fiquei preocupado com sua ausência na sala hoje. Fui até sua casa e Miranda disse que você deu um susto neles essa noite. Sente-se bem?

Derrepente a tristeza de Anne se exponenciou e espalhou-se por seu corpo como um veneno. E eu sabia como ela estava se sentindo, tínhamos uma empatia forte, era como se o controle da mente dela estivesse em minhas mãos. Mesmo que da minha parte não tenha sido intencional, algo no que eu dissera relembrou algo que talvez ela tenha desejado esquecer.

- Tenho dificuldades para dormir, sabes disso - disse.

- Com nenhuma outra pessoa você usava lanternas para enviar mensagem em código Morse pela janela, senhorita.

Ela não sorriu, mas apertou minha mão brevemente.

- Faz tempo desde a última vez que fizemos isso.

- Minhas pilhas acabaram.

Sorrimos juntos. Foi como se o céu tivesse se aberto sobre nós.

- Estou com medo - desabafou - de vez em quanto eu surto. Acham que eu faço de propósito, lá em casa acham que eu sou louca, essa é a verdade - disse ela quase sussurrando.

- Bobeira. Você não é louca.

- Na verdade eu não sei, Savas - o tom de voz dela parecia angustiado - não sei onde termina a verdade para que o exagero se inicie, me entende? Essa noite Miranda disse que eu estava fora de mim, que estava louca e que tentei matar meu pai depois de pegar uma faca na cozinha.

- Miranda colocou erva demais no chá que toma antes de dormir? Você não fez isso! - defendi - tenho certeza de que jamais o faria.

Uma única lágrima escorreu do rosto de Anne, e senti-me inclinado a abraçá-la, mas me segurei.

- Não consigo diferenciar o que é real do que não é, Savas.

- Tudo bem, não importa. Você ainda sabe quem é não sabe?

- Não sei. Eu não lembro de nada do que Miranda falou para mim, não me lembro de ter feito nada do que me disseram que eu fiz...

- Então é porque você não fez - apoiei - porque acreditar no que eles estão dizendo?

Uma nova lágrima desceu e dessa vez eu a abracei a beijei sua cabeça.

Derrepente Anne se desvencilhou com certa rudeza e ficou de pé, frente à mim. Tirou a jaqueta jeans preta que cobria seus ombros e exibiu seu braço.

- Anne! O que aconteceu? - perguntei ao ver.

- Viu? Eu não lembro disso, Savas. Não lembro!

Haviam vários cortes em ambos os braços. Alguns mais profundos, outros mais rasos, mas sem duvida todos havia feitos com faca. Miranda tratou deles com a mesma pomada que usara nos ferimentos que Lobo causou em mim. Reconheci pelo aspecto cicatrizado e seco que o ferimento tinha, mesmo tendo sido feito há tão pouco tempo.

- Miranda disse que quando tentei matar meu pai e não consegui, comecei a me torturar cortando-me e tentando matar a mim mesma.

Nesse momento as pernas de Anne pareciam ter perdido a força, pois ela se deixou cair no chão, de modo desfalecido. Segurei-a impedindo que caísse no chão com força. Alguns galhos de árvore se mexeram atrás de nós e eu imaginei ser Ben, e por isso não me preocupei.

- Anne, você pode ter se machucado sem querer. Não pode ter simplesmente acordado no meio da madrugada e ter decidido matar à todos. A Anne que eu conheço jamais teria feito isso.

- Nos conhecemos a pouco mais de dois meses, talvez você não me conheça o suficiente para ter certeza de palavras como essas.

Eu a abraçava e ela entrelaçava meus braços em seu pescoço como se quisesse se sentir protegida.

- Talvez você tenha razão, mas passamos por coisas significantes juntos, Anne. Coisas que revelam a natureza de uma pessoa, coisas que revelam o que há por trás de olhares e palavras. Tempo é só tempo, dois meses podem significar nada da mesma maneira como podem significar muito.

Anne chorava, chorava de uma maneira que nunca a vi chorar antes.

- A Anne que eu conheço jamais machucaria alguém. Ela é a menina mais linda e mais dócil que já conheci. Tenho certeza que se há algo oculto atrás desses seus olhos com certeza não é ódio e nem raiva.

Passei a mão pelo rosto dela, removendo todo o resquício de lágrima que pude. Mais do que nunca desejei vê-la sorrir.

- Eu sabia que não estava fazendo a escolha errada, Savas - disse ela - sabia que poderia escolher e você e que jamais me arrependeria.

- Do que está falando?

Anne se afastou, dessa vez de maneira mais doce e se passou a me olhar nos olhos com intensidade forte. Primeiro passou seus dedos em minha mão esquerda e começou a subir. Enquanto subia lentamente ela levantou a manga do meu casaco, deixando meu braço branco à mostra. Seus dedos tocaram as cicatrizes deixadas pela mordida de Lobo, e a partir daí suas lágrimas recomeçaram.

- Lobo morreria em algum tempo - ela disse - e eu não poderia ficar sozinha. Estava desesperada. Foi aí que comecei a reparar em você. Era quieto como eu, e chamava a atenção dos professores por ser o mais inteligente da turma. Em pouco tempo Miranda, que ouviu da boca de outras pessoas, já sabia de sua história e a razão pela qual você e sua mãe e seu irmão se mudaram para o interior. Depois disso soube que você me entenderia se me conhecesse, pois compartilhava da mesma dor que eu.

- Anne... - balbuciei surpreso.

- Querendo ou não, sou orgulhosa, não me aproximaria de você oferecendo a minha amizade. Precisei de um plano mais astuto, algo mais elaborado. Então, usei o Lobo. Mandei que ele o atacasse e que machucasse você o suficiente para que eu tivesse motivos para levá-lo até a minha casa. Uma vez lá, tratado por meus criados, vendo de onde eu vinha e sabendo de minha história, nos tornaríamos amigos inevitavelmente.

- E aqui estamos – balbuciei sorrindo.

- Me desculpe, Savas. Mas eu precisava de você. Essas foram às coisas que tive que fazer pelo meu desejo de companhia.

- Não importa Anne. Você é tão importante para mim quanto sou para você. Temos um ao outro e isso é o que importa agora.

Ela sorriu e depois me abraçou.

- Você é o melhor amigo que alguém poderia querer ter.

No fundo eu sabia que ela estava completamente errada sobre isso.

- Você também Anne - retribui, de modo sincero.

Levantei e ajudei-a a se levantar.

- Vamos levantar desse chão úmido e voltar para casa. Trouxe para você as matérias e algumas anotações que você vai precisar.

- Obrigado, Savas - respondeu enxugando as lágrimas no rosto - é muita gentileza sua.

Retribui apenas sorrindo.

Anne entrelaçou seu braço no meu e enquanto andávamos pelo caminho que levaria até a casa dela, encostou sua cabeça em meu ombro.

- Posso perguntar uma coisa? - disse-lhe.

- Claro, anjo.

- Sabia que Lobo iria morrer?

- Sim, sabia.

- Como?

- Meu pai o envenenou.

T R Ê S

Minha rotina estava quebrada definitivamente.

Às quatro horas da tarde de um dia de semana eu dificilmente estaria sentado à mesa da sala de estar da família Hillebrand comendo o pudim de chocolate preparado por Miranda.

Assim como todos os outros cômodos da casa, a sala de estar também era admirada por mim por sua beleza sombria e sua iluminação fraca. A mesa de madeira antiga, provavelmente de lei, era lustrosa e mesmo já tendo anos, reluzia como nova. As paredes eram recobertas com um papel cinzento com algumas estampas pequenas e repetidas e havia quadros por toda a parte. Quadros bizarros, quadros estranhos que mesmo eu só havia reparado o quanto, somente agora. A maioria deles era de paisagens belas, campos bonitos com caracterizas outonais mas todos eles exibia algum tipo de dor ou tortura. Em um deles havia uma mulher com roupa de camponesa, crucificada. Outro, uma mulher pegando fogo e outra uma mulher cozinhando em um caldeirão de óleo borbulhante.

Anne mal tocara no seu pudim, já estava enjoada dos doces que Miranda fazia, muito embora gostasse de todos. Ela estava junto comigo, perdida na contemplação dos quadros.

- Já terminou? - perguntou ela depois de algum tempo.

Olhei para o meu pratinho e vi que ainda restava pudim. Devorei-o, sentindo aquele curioso gosto amargo do final, antes de responder:

- Sim, agora sim.

- Vamos então. Vem comigo.

- Onde?

- Quero te mostrar meu quarto.

Foi uma surpresa o convite. Particularmente talvez eu achasse que os familiares de Anne talvez vissem nossa atitude como algo inadequado, um rapaz estar dentro do quarto de uma menina sozinho com ela... por um momento pensei em hesitar, mas a curiosidade de saber o que havia lá era maior que eu. A família de Anne tinha um mistério. As más línguas da região chamavam os Hillebrand de família Adams devida a certa estranheza deles e uma série de outras coisas bobas, como o fato de terem a casa mais afastada das outras e por serem a única - e portanto mais próxima - casa perto do cemitério. Eram preconceitos ridículos, mas sempre soube que tinha algo ali que me atraia algo que não sabia que ansiava descobrir e de alguma eu sabia, Anne me revelaria agora.

Subimos as escadas que ficavam ali mesmo na sala de estar e chegamos a um corredor que não era menos sombrio do que o resto da casa. Meu fascínio só fazia aumentar. Ali vi outros quadros, retratos na verdade, de antepassados de Anne. Ela seguia na frente, sem falar. Finalmente então chegamos a uma bonita porta de madeira em cujo topo havia o nome de Anne talhado sobre uma placa de prata. Entramos e o ranger da madeira velha foi ouvido. Uma lufada de vento frio foi o que nos recebeu, uma lufada de vento frio e tenebroso.

- Esqueci a janela aberta - disse ela atravessando o quarto para ir fechá-la - fecha a porta, por favor.

Obedeci, ansioso para me virar o observar o quarto.

A cama de casa onde Anne dormia tinha um enorme mosquiteiro e estava desarrumada, abarrotada de livros. Ela assim como eu gostava muito de ler. Havia um único quadro em frente à cama dela, preso no alto da parede. Era o retrato de uma bela mulher caucasiana de cabelos loiros e olhos claros. Trajava um vestido branco e possuía um olhar meigo e um sorriso enigmático, imediatamente imaginei quem fosse.

- Gostou dela? - perguntou Anne sentada sobre a mesa da escrivaninha próxima a janela.

- Sua mãe? - perguntei.

- Melissa, o nome dela.

Parei de olhar para o quadro para não constangê-la, e também para mostrar que não precisávamos continuar com aquele assunto se ela não quisesse.

- Você sabe como é sentir essa dor. As recordações dela ainda estão espalhadas pela casa, e eu o tempo inteiro penso que ela uma hora vai me acordar de manhã, como sempre fazia.

Aproximei-me dela, mas segui para a janela. Lancei meu olhar através daquele vidro pelo qual ainda pingava do telhado a água da chuva. Olhei para fora, para o que poderia ser visto e por um segundo me perdi, mas logo respondi:

- É como se um pedaço de nós tivesse sido levado com eles - disse tentando não exprimir tristeza - acho que posso compreender como você se sente. Dava-me melhor com o meu pai, assim como você parecia lidar melhor com a sua mãe e foram justamente eles que perdemos.

- Nunca soube como seu pai morreu.

- Ele pegou uma faca e transpassou-a pelo pescoço. Foi horrível.

- Minha mãe foi de câncer, ela ficou muito tempo doente. Meu pai ao vê-la daquela maneira meio que adoeceu também. Hoje, passa mais tempo dentro do quarto do que fora, quase não o vejo mais.

- Lamento - disse.

- Não preciso de sua lamentação - ela pulou de cima da mesa e me abraçou - preciso de você. Sua companhia já é mais que o suficiente, Savas.

Anne estava estranha. Não que ela não fosse, mas agora eu podia perceber uma dependência cada vez maior. Cada momento que passávamos mais juntos esse sentimento só parecia aumentar. Somados aos picos de instabilidade e as coisas que ela me dizia, eu ficava assustado. Nada do que eu havia dito à ela no cemitério fora mentira, nada mesmo. Realmente acredita que ela não teria sido capaz de tentar matar seu próprio pai, mas... será que ela não teria motivos para isso?

- E aqueles livros? Do que são? - perguntei tentando mudar de assunto.

Sem dar um aviso prévio me aproximei da cama e vi algo curioso. Algo que ainda não tive como reparar devida a pilha de livros em cima da cama, que ocultava aquele objeto sobre o criado mudo.

Era um crânio.

Tinha o tamanho exato de um crânio humano. Estava velho e meio apodrecido, e embora parecesse seco, estava amarelado e carcomido. Espalhado sobre ele também havia cera, proveniente da vela - agora apagada - que estava sobre ele.

- Anne, o que é aquilo? - perguntei meio assustado.

- É... um abajur - respondeu ela se aproximando de mim e segurando minha mão - não ficou com medo, ficou?

- É... estranho - balbuciei.

- Não precisa ser tão gentil, Savas. Eu sei que você sabe.

- Sabe que eu sei? Sabe que eu sei o que?

- Que somos diferentes - respondeu ela tranquilamente - toda a família Hillebrand descende de uma antiga linhagem de necromantes.

Eu ri.

Conforme eu ria e ela continuava a me olhar sério comecei a ficar sem graça a fui obrigado a acreditar que ela estava falando a verdade.

- Necromantes? Mesmo? - disse recompondo-me – está se referindo a pessoas que contatam, conversam e incorporam pessoas mortas?

- Sim - ela estendeu para mim um livro que havia pego na pilha em cima da cama - olhe.

Era um livro de capa de couro preto e tinha o tamanho de um livro comum. Era um volume não muito grosso, mas nem por isso deixava de ser interessante. Suas folhas eram quase tão delicadas quanto papel manteiga e tinham textos e desenhos estranhos de cima a baixo em todas as páginas. Algumas coisas estavam em português, outras em latim e outros trechos acham que em alemão.

- Todos esses livros são de feitiçaria? – perguntei meio sem reação.

Um lado meu achava tudo aquilo interessante e o outro estava com um pouco de medo.

- A maioria – respondeu ela se aproximando da caveira sobre o criado mudo – desculpe por ter mentido novamente. Sempre gosto de testar sua reação antes de contar a verdade.

- Ah, tudo bem – mas sobre o que você mentiu?

- A caveira não é um abajur, e você deve ter desconfiado disso por si mesmo.

- A caveira é de um amigo – respondi.

- Esse crânio é parte de um espírito com o qual você conversa? – perguntei curioso.

- Na verdade é parte de um espírito com o qual eu costumava conversar. Não consigo mais falar com ele, faz algum tempo.

- É necessário um osso do antigo corpo do espírito que está tentando conversar?

Sinceramente continuei com as perguntas e prestava muita atenção nas respostas. Pouco me importava se eram mentiras ou não. Estávamos entretidos e ela parecia muito longe de dar um novo ataque.

- Sim, somente nos primeiros contatos através de Ouija – ela me olhava esperando mais reações, mais curiosidade, mais perguntas - não está curioso para saber por que estou lhe mostrando isso?

- Você não vai me dizer que também descendo de uma família de necromantes, vai? - disse ironizando.

Anne riu e me deu um tapa no ombro.

- Não, nada disso. Você não pertence a uma família assim, mas espero que saiba que você assim como eu pode utilizar esses feitiços, especialmente se usarmos isso - Anne apontou para caveira sobre o criado mudo.

Eu ri, mas senti-me gelar por dentro. Minha única e melhor amiga havia revelado todo o aspecto sombrio de sua família e agora desejava que eu fizesse feitiçaria com ela. Em que tipo de história duas crianças de dezessete anos fizeram feitiçaria e se deram bem? Em nenhuma! Por Deus, eu tinha razões para me desesperar.

- Porque eu conseguiria utilizar feitiçaria, não sendo eu um bruxo ou necromante?

- Porque você é gêmeo. Savas você o Breno são gêmeos e gêmeos possuem um poder sensitivo várias vezes maior do que o de uma pessoa comum. Além disso, você é do signo de câncer, entre os signos zodiacais o mais sensitivo.

- Sensitivo? - balbuciei um tanto quanto atônito.

- É. Sensitividade é a capacidade se sentir coisas invisíveis. Espíritos, por exemplo. Você nunca teve sensações? De que algo ruim iria acontecer ou uma forte sensação de que você esta esquecendo alguma coisa que não deveria? Isso é sensitividade. Durante toda a minha vida eu só pude ouvir os poucos espíritos com os quais tive contato. Você vai poder vê-los!

- E o que você quer usar esse crânio comigo? Para tentar chamar seu amigo espírito de novo?

- Sim, quero que me ajude a evocá-lo.

- Não pode estar falando sério, Anne.

- Por favor, me ajude!

- Nem pensar - respondi.

Q U A T R O

Não foi nada fácil tirar da cabeça de Anne aquela ideia louca. Mas quando a minha vontade de ir embora aumentou devida a insistência, ela finalmente começou a afrouxar. Acabamos conversando mais algum tempo e tive tempo de mostrar os papéis da escola que havia levado para ela. Sai de lá ao crepúsculo e mesmo que quisesse não poderia demorar mais, minha mãe odiava chegar em casa e não nos encontrar lá, e além disso, particularmente não gostava de ficar a noite na rua, no meio daquele matagal imenso.

- Ponha pilha na lanterna e converse comigo antes de dormir - pediu Anne quando se despediu na porta de sua casa.

- Feito - respondi beijando sua bochecha.

Fiz o possível para chegar em casa o mais rápido possível, a escuridão que acompanhava o por do sol estava se aproximando muito mais rápido do que os meus pés podiam acompanhar e aquilo me incomodava. Ao chegar à frente de casa percebi que deveria estar preparado para tudo, inclusive para ouvir os comentários infelizes do meu irmão e mais do que isso, ouvir minha mãe, pois ela já havia chegado do trabalho.

Quando abri a porta o cheiro do jantar inundou minhas narinas. Breno e ela estavam sentados comendo e arregalaram os olhos para mim quando entrei.

- Oi filho.

- Oi, mãe.

- Onde esteve? Cheguei cedo do trabalho para passarmos algum tempo juntos...

A interrompi. Não queria prolongar nenhum tipo de conversa familiar e eu sabia - sabia? ah meu Deus seria eu mesmo um sensitivo? - que era aquilo que ela queria.

- Me desculpe por ter saído correndo, estava atrasado. Passei à tarde na casa dos Hillebrand, Anne e eu precisávamos adiantar um trabalho e ela não foi à escola hoje. Bem, se me derem licença eu vou subindo, estou com sono.

- Savas! - bradou minha mãe no momento em que lhe virei às costas.

- Sim?

- Sente-se aqui, vamos jantar eu fiz sopa.

- Jantei na casa da Anne - menti - e eu odeio sopa - acrescentei, antes de subir as escadarias para o meu quarto.

Dei um tempo no quarto. Terminei de ler o livro de contos de Edgar Allan Poe que Anne havia me emprestado há algum tempo e só então desci para tomar banho. A porta do quarto de Breno estava aberta e ele estava no computador. Minha mãe estava na cozinha, arrumando-a. Entrei no banheiro o mais rápido que pude, mas quando saí não pude evitar. Mamãe estava lá sentada na mesa da cozinha, com um prato de bolachas de chocolate diante de si, olhando para mim de modo repreensor e apontando para que eu me sentasse ali com ela.

- Coma - disse ela empurrando o prato de bolachas para mim - lamento não saber de cabeça os seus pratos preferidos, mas também não quero que você vá dormir com fome.

Sorri meio de esguelha e aproximei o prato de mim.

- Como vai à escola? - perguntou ela - você nunca fala dela pra mim.

- Como vai o trabalho? - rebati - você fala ainda menos sobre ele para nós. Nem sabemos onde você trabalha.

- Eu sei que nosso diálogo não é o melhor do mundo. Converso o seu irmão, faço o que eu posso, mas não sei o que fazer com você. Não consigo me aproximar de você, não consigo entender você. Olha, não sou o Rick. Sei que você era mais ligado no seu pai e que no fundo você nunca me aceitou, mas Rick não está mais aqui e eu preciso que você entenda que...

- Chega, eu não quero ouvir.

- Mas precisa! Estou preocupada com você - continuou ela - concordamos que você nunca foi tão animado e extrovertido quanto o Breno, mas ao menos você falava mais, sorria um pouco mais. Olha, compreendo que você esteja sofrendo, eu também estou! Meu Deus, foi o meu marido se matar na cozinha. E isso só há dois meses!

- O que você quer? Não fiquei assim porque eu quis, sei lá, o que aconteceu comigo. Você vai mesmo querer que eu saia por ai contando piadas e bancando o palhaço?

- Tente ao menos.

- Não vai ser sincero - respondi - vou estar fingindo ser alguém que não sou e fingindo estar sentindo uma coisa que eu não vou estar, e eu não, sou, assim!

- Sabe, Savas - começou ela - todas as vezes que fui dormir eu achava que iria enlouquecer com aquela cena, com aquela imagem do Rick morto sobre uma poça de sangue se repetindo na minha mente o tempo inteiro. As coisas haviam mudado e não havia outra maneira para mim se não aceitar aquela realidade. Não muito diferente de você, eu também quis me esconder, também quis ficar muda, também quis sumir, mas não pude. Então, me obriguei a sorrir mesmo quando não podia. Obriguei-me a ficar alegre mesmo quando estava triste e isso dia após dia, esperando chegar o dia em que meus sorrisos e minha alegria não fossem mais simples fingimentos. É isso que quero de você, é isso que preciso que faça. Não só por mim, mas por você mesmo.

- Mais alguma coisa?

- Não, apenas tente ok?

- Ok. Posso subir?

Ela gesticulou para que eu esperasse e então se levantou e vasculhou algo em sua bolsa que estava pendurada na cadeira onde estava sentada.

- Pegue.

Abri um sorrisinho um pouco mais convincente dessa vez. Ela estava me oferecendo uma pequena embalagem com quatro pilhas;

- Não vai poder conversar com Anne se sua lanterna continuar apagada. Não vá dormir muito tarde ok? E lembre-se de que amo você - disse inclinando-se sobre a mesa para dar um beijo em minha testa.

- Valeu. Boa noite, mãe - falei carregando comigo para o quarto as pilhas e o prato com os biscoitos.

O Príncipe escrito por Nicolau Maquiavel foi o livro que abri quando entrei no quarto. Na realidade, não possuía a menor das vontades de lê-lo naquele momento havia algumas coisas na minha mente, alguns pensamentos os quais mereciam um pouco de atenção agora. Mas não dei atenção a eles. Ainda eram nove e dez da noite e Anne não daria o sinal antes das dez.

Sentei na cama e aguardei. O frio fez com que eu deitasse e experimentasse receber um pouco do calor das cobertas o que naturalmente me fez adormecer. Apesar de ter sentido que havia passado por um cochilo, quando acordei e olhei desesperado para o despertador, ainda eram dez e cinco. Olhei pela janela e lá estava o sinal de Anne. Ela piscava com a lanterna de seu quarto, dizia: "você é um garoto mau, Savas", de imediato não entendi o que aquilo significava. Corri para a mesinha de canto onde estava a lanterna e coloquei nela as pilhas, coisa que ainda não havia feito.

Quando cheguei à janela novamente o pisca-pisca da lanterna de Anne havia parado. Apressei-me em dizer “estou aqui, desculpe a demora”. Passaram meio minuto, havia repetido a mensagem duas vezes, mas não houve resposta. Estava quase desanimando quando a lanterna de Anne piscou mostrando que ela ainda estava acordada. A mensagem que ela estava enviando era maior do que as habituais, precisei me concentrar para não me perder, mas não consegui "condenar uma... só fará... todo o mal... " foi o que compreendi. Imediatamente disse "não compreendo, aconteceu alguma coisa?" perguntei, mas não houve respostas. Permaneci aflito observando da janela e até cheguei a abrir o vidro da mesma para poder enxergar melhor. Eis que então, não mais de seu quarto no segundo andar, mas de uma altura que parecia corresponder a da porta de entrada, as luzes da lanterna disseram: "você acredita em espíritos?", relutei em responder uma pergunta tão inadequada quanto aquela, mas graças a insistência dela respondi "não, não acredito" e ela respondeu "deveria, pois eu acredito em você".

Senti o medo se espalhar pelo meu corpo de um modo muito mais condutivo do que o frio que entrava pela janela naquele momento.

"Anne? É você?" perguntei.

"Ela está obedecendo, não pode falar" respondeu.

Nesse momento vi uma coisa que jamais esqueceria. Mesmo aquela distância tinha certeza do que vi. A luz da lanterna foi emitida através de um objeto e graças à forma que esta tomou, pude saber exatamente de que objeto se tratava. O crânio. Anne – eu ainda acreditava que era ela tentando me pregar uma peça - havia colocado a lanterna dentro do crânio que vi mais cedo em sua casa, se modo que a luz tomou o formato do mesmo. Fiquei nervoso, minha lanterna havia começado a falhar - provavelmente por causa da minha dificuldade de acender e apagá-la de forma a criar as palavras certas - e nesse momento notei que Anne começou a se mover.

Sua lanterna movia-se na escuridão da mata como um vaga-lume e a última frase inteligível que consegui decifrar através do Morse foi "venha". Mesmo diante daquela situação, sinceramente, não tencionei sair de casa e enfrentar toda aquela imensidão escura e mórbida para me encontrar com Anne, especialmente porque de acordo a direção da luz, ela estava indo diretamente para o cemitério. Mas no final não tive escolha. Uma luz acendeu-se na casa da família Hillebrand e o que eu pensei ser um sinal de que Miranda havia acordado e notado que Anne havia saído de casa tarde da noite, era na verdade fogo. Um fogo amarelo e brutal que se espalhou pela casa muito mais rápido do que se poderia prever ou imaginar.

Sai do meu quarto correndo e gritando. Três vezes disse:

- A CASA DOS HILLEBRAND ESTÁ EM CHAMAS!

E torci para que isso fosse o suficiente para acordar minha mãe e meu irmão, pois eu não poderia esperá-los levantar. Minha lanterna, firme no punho, me acompanhou pela estrada de areia e mato depois que sai desesperadamente de casa. No caminho fiz todo o barulho que pude, não era tão tarde, não foi difícil fazer com que as pessoas notassem que algo de errado estava acontecendo, sozinho jamais poderia fazer algo contra aquele fogo, precisei imaginar que contaria com eles para proteger Miranda, Ben e o pai de Anne. Minha prioridade naquele momento era apenas uma, alcançar o cemitério.

Uma ventania desagradável varria a vegetação de um lado para o outro e só se intensificava com o passar do tempo. A claridade das chamas na casa dos Hillebrand só aumentava.

- O que aconteceu? - gritou um homem ao me ver correndo.

- Não sei! Façam alguma coisa!

Ele me perdeu de vista quando me embrenhei no mato que levava ao cemitério.

Olhei de um lado para outro nervoso esperando ver a luz da lanterna de Anne brilhar, mas não vi nada. Iluminei as lápides e túmulos espalhados por todo lugar, mas só o que vi eram as folhas secas sendo arrastadas pelo vento e nada mais.

- ANNE! - gritei.

E nada.

Continuei a correr de um lado para o outro tomado pelo desespero de não saber o que me esperava, enquanto ouvia o som do fogo consumir os móveis da casa dela. Tudo aquilo me angustiava, me deixava sem chão. Respirei fundo pois tudo aquilo estava me deixando a beira de um ataque nervoso. Desanimado baixei a lanterna e mirei para o chão, onde vi uma linha de gotas de sangue sobre a grama seca. Espantei-me, mas tomei as rédeas do controle do meu corpo e corri o mais rápido possível seguindo o sangue e esperando de todo o meu coração encontrar Anne.

Quando dei por mim, estava diante do túmulo de Lobo. Deveria ter previsto que a encontraria ali. Agachei-me ao seu lado e tentei acordá-la mas notei que talvez fosse tarde. Com o crânio na mão, Anne estava semimorta no chão quando a peguei nos braços. Havia uma faca transpassada em seu pescoço.

- Deus proteja minha alma mortal, - balbuciou num tom totalmente compreensível - e proteja aqueles que fiz sofrer, de todo o mal.

Gritei desesperado com lágrimas nos olhos, gritei desesperado com as mãos trêmulas e o coração em pedaços.

- Seja minha companhia, Savas - disse ela por fim.

Sacudi-a, mas vi que o sangue escorria incessantemente e que independente do que eu dissesse nada daquilo era o suficiente para trazê-la de volta a vida.

C I N C O

A sensação de uma noite longa havia retornado.

Foi como quando eu e Breno soubemos da morte de nosso pai, Ricardo. Não importava o que fizéssemos, nossas vidas pareciam congeladas, o relógio na parede parecia quebrado e inútil, na verdade, tudo parecia quebrado e inerte inclusive eu.

Os olhos sem expressão de Anne estavam lá, mais azuis do que nunca. Tão azuis que tudo a volta parecia ser cinza, mas também estavam imóveis e a coragem necessária para fechá-los, era a coragem que eu não tinha. Os feixes de luz começaram a aparecer uns após os outros atrás de mim, inebriando minha visão e tentando tirar-me da escuridão daquele cemitério sombrio.

Logo, pelo menos uma dúzia de pessoas com tochas de fogo me rodeava, olhando-me e cochichando sobre o que teria acontecido ali. Mantive-me absorto. Meus olhos estavam ligados a Anne, meu coração estava ligada a ela e mais do que isso, todo o meu desespero e sofrimento também estava.

Alguém me segurou pelo braço e tentou fazer com que eu me afastasse. Relutei mas estava fraco demais para lutar e acabei sendo arrastado. Graças às fumaça que vinha da casa em chamas, e que já cobria o cemitério, o lacrimejar de meus olhos enfurecidos pela crueldade da vida, não permitiu que visse quem o fez, mas alguém estendeu sobre Anne um lençol branco, a bandeira que mostrava que aquele era o fim supremo, o fim sem volta, o verdadeiro fim.

Graças ao meu esperneio, ao meu desespero e nervosismo me arrastaram até uma fria lápide, onde me encostaram. Alguém, ao perceber que tremia com o frio, jogou sobre mim uma jaqueta mal cheirosa sob a qual o calor brotou. Minha cabeça pendeu para o lado e uma por vez, lágrimas pingaram sobre meu ombro. Não me movi, não falei uma só palavra, e nem mesmo pisquei meus olhos marejados. A maioria das pessoas haviam ido embora, três apenas que continuavam a velar o por de Anne olhavam para mim com olhar de pena e permaneciam a cochichar algo que lhes fizesse entender o que ocorreu ali. Os bombeiros haviam sido chamados, mas quando se mora há trinta quilômetros do centro da cidade, não se pode esperar um socorro rápido para absolutamente nada e nem em nenhuma circunstância. Ao que pude ouvir naqueles murmúrios que chegavam disturbados aos meus ouvidos, Miranda, Ben e o pai de Anne já estavam todos mortos. Com certeza aqueles grossos blocos de mármore brutos resistiam ao fogo até que os bombeiros chegassem, mas não restaria nenhuma outra coisa no interior da casa a não ser cinzas e mais cinzas.

Inebriado em palavras cruéis que se repetiam e se repetiam em mim como uma gravação torturante, desfaleci, porém, antes disso acontecer meus olhos sem vida viram algo. Algo iluminado pelas chamas trazidas por aqueles abutres fedorentos, algo que era tão nítido em meus olhos e tão lívido que por um instante pensei ter os olhos de uma águia. E lá estava, há cerca de sete metros, semi-escondido atrás de uma árvore, uma criatura revestida de preto, com a chama do mistério ardendo em seus olhos negros. Era um homem alto, era impossível para mim dizer sua idade. Sua expressão parecia me mostrar o quanto ele era sábio ao mesmo tempo em que procurei por mais referências em sua face e só o que encontrei foi uma imensidão de inexpressão e frieza.

Seus cabelos negros e lisos, mas ao mesmo tempo se repicavam apontando para vários lados. Era dono de uma beleza admirável, expressa por sua sensualidade estranhamente atraente. Seja no modo como ele me olhava, ou pela impressão que tinha de que ele desejava falar comigo, ele em si, parecia um mistério a ser desvelado.

Despertei com a força da chuva aumentando. A face daquele estranho homem estava estampada em minha mente, mas já não estava naquele cemitério úmido, coberto por uma jaqueta malcheirosa, estava em casa. Tive sorte por estar ali e não em uma prisão. Imaginei que desconfiariam de que eu tivesse assassinado Anne, mas quando minha mãe entrou no quarto uns instantes depois, notei que a preocupação maior não parecia ser com aquilo.

Ela me abraçou, parecia nervosa e sua estava pálida. Foi nesse momento que percebi que estava no quarto de Breno e não no meu. Achei estranho, mas irrelevante de qualquer modo.

- Querido, como você está?

Meus olhos procuraram por Breno, mas ele não parecia estar por perto.

Curiosamente eu não me sentia tão psicologicamente frágil como eu achei que estaria. Talvez pudesse ficar ali olhando para ela e sem me aprofundar nos detalhes que diziam respeito aos meus sentimentos, contar a ela como foi minha visita à casa dos Hillebrand e como fui parar naquele cemitério. Ela parecia disposta a ouvir, parecia realmente preocupada, seus olhos diziam que ela já estava exaurida de tanto chorar, mas decidi não contar nada.

- Estou bem - foi minha única resposta.

- Vamos ficar juntos ok? Vamos superar isso juntos - disse abraçando-me novamente.

Visitei meu próprio quarto na hora que mamãe disse que prepararia o almoço. Inevitavelmente senti-me estranho, especialmente pelo fato deste estar trancado. Minhas coisas estavam todas no mesmo lugar mas tinham uma leve camada de poeira. As janelas estavam fechadas, cobertas pelas cortinas, as abri. Ao longe, lá estava a casa dos Hillebrand. Parecia uma pedra de carvão gigante agora, com a tintura negra deixada pelas chamas.

Quando minha mãe veio me chamar para o almoço e viu-me deitado em minha cama, olhando para as minhas coisas com um olhar atônito e desencantado, começou a chorar. Achei aquilo totalmente desnecessário, sem motivos, mas ignorei.

- Onde está meu irmão agora? - perguntei.

Ela se aproximou de mim e se agachou ao lado da cama sorrindo, mesmo tristonha.

- Ele está bem, tente não se preocupar. Está melhor que nós.

Decidi não tentar entender o que aquilo significava. Decidi que queria apenas, esquecer tudo. E se possível, todos também.

O dia passou rápido e tirando alguns momentos em que desci até a cozinha para comer alguma coisa, passei o resto dia dormindo, filosofando com palavras soltas em minha mente, palavras que tinham para mim sinônimo de um passado feliz e compreensível. Das vezes que passei perto da janela durante aquele dia não vi muito movimento de pessoas aos arredores. Não sabia quando seria o enterro dos Hillebrand, a única coisa que sabia, era que não possuía e menor vontade de ir. Desejei que Anne ainda estivesse viva dentro daquela casa. Acreditar naquilo fazia com que eu me sentisse menos triste e menos inclinando a abraçar o desespero que me cercava. Não buscar informações sobre o sepultamento e não ir ao cemitério depois que esse ocorresse era o meu jeito de me proteger.

Naquela noite, minha mãe pediu que eu deixasse o quarto e dormisse em seu quarto com ela. É claro, ela estava sorridente e se esforçava muito para mostrar que tudo estava bem, mas a realidade é que a morte de Anne havia abalado tanto ela quanto a mim. Fiquei ao seu lado como ela pediu, mas somente até que ela adormecesse. Eram duas horas da manhã quando subi novamente para o meu quarto e abri a porta lentamente. Não acendi a luz. Procurei pela lanterna e fui até a janela.

"Está uma bela noite - pisquei - espero que já tenha feito a lição de casa."

Repeti a segunda parte da mensagem pela segunda vez e já ia fechando a cortina quando recebi uma mensagem de volta, feita certamente por uma lanterna, como quando Anne e eu fazíamos.

"Sinto um tédio infernal. Se houvessem cadernos aqui, fazer tarefas de escola não seria tão ruim afinal."

"Anne é você?"

"Claro que não."

"Quem é você?"

Mas a partir daí não recebi mais resposta alguma.

Novamente estava eu, na rua. Saí de casa sorrateiramente ainda de pijamas e com a lanterna na mão. Não pensei em procurar por chinelos, pois sabia que despertaria minha mãe fazendo-o. Pisando nas poças d'água, recebendo o sereno no rosto e só ligando a lanterna quando era realmente necessário - para não chamar a atenção dos vizinhos - eu atravessei todo aquele caminho longo ouvindo o som de cobras d'água piando, sapos coaxando, - alguns até pulando no meio do caminho - tudo para chegar até a casa dos Hillebrand. Tentei abafar todos os avisos na minha mente que me alertaram de que aquilo era uma loucura, de que Anne estava morta e de que tudo que eu tinha feito era fantasiado as respostas que recebi em Morse.

Ninguém está na casa.

Quando pensei nessa frase, nítida e clara parei. Faltavam metros para chegar a casa quando a consciência finalmente retornou a mim. Por Deus, o que estava fazendo ali? Querendo sofrer ainda mais? Querendo fazer com que minha mãe sofresse ainda mais? Será que meu egoísmo era tão grande a ponto de conseguir me preocupar somente comigo?

Apaguei a lanterna em minha mão e resolvi retornar para casa na escuridão. Não me importava mais se pisaria em algum sapo ou se afundaria meu pé em um poço de água e lodo, o que queria era despertar. Parecia algo contraditório, mas era daquela forma que me sentia. Um lado queria enfrentar a realidade, acordar e simplesmente viver, com Anne ou sem Anne. Com meu pai, ou sem ele. O outro lado estava inconformado, sentia que a dor de perdê-los parecia gradativa e que embora ambos tivessem levado um pedaço enorme de mim com eles, a cada dia que passava, a cada lembrança repensada, eles levavam ainda mais. Minha luta em não aceitar a realidade, era na verdade uma lutar para manter minha própria sanidade.

"Está frio aí fora. Entre, quero conversar."

Novamente as luzes vieram da casa queimada.

Não perdi tempo pensando, e tão pouco respondendo. Com o máximo de mim, apenas corri. Cheguei à porta da casa exaurido. Toquei-me então que não adiantaria bater a aldrava de uma casa cujos seus moradores estavam mortos, mas havia alguém na casa não havia? Pensei em bater na porta, mas quando toquei nela ela se abriu como se estivesse apenas encostada, todo o tempo. A luz da lanterna afastou a escuridão que havia dentro da casa. Ainda havia poucos pedaços de madeira no chão e outros objetos que tiverem maior dificuldade em serem consumidos pelo fogo, como lustres e outras coisas de aço pesado. Fora isso, cada passo que meus pés davam levantava uma nuvem de poeira. Não senti medo. Se a luz que respondeu ao meu chamado não fosse uma alucinação de minha mente, se não fosse um sinal de que estava ficando perturbado, então deveria ser alguém e não uma assombração.

Andei por todos os cômodos inferiores procurando por alguém, e várias vezes disse "olá" e não obtive nenhum som como resposta. Estava receoso em subir ao segundo andar, mas uma vez que as escadas também eram feitas do mesmo mármore que dava sustentação a casa, não haveria com o que me preocupar.

Lentamente subi.

Ouvi um estalo agudo e fraco vindo do quarto de Anne. Andei até lá e empurrei a porta que estava entreaberta. Inseguro iluminei diferentes pontos do quarto até finalmente chegar aos escombros de sua cama, e ali, sentado sobre aquela pilha de madeira queimada e de ferros retorcidos, como se fosse um trono real estava uma criatura, a mesma criatura que vi no cemitério antes de desmaiar. Todo o chão a cerca dele havia penas negras, penas longas que pareciam pertencer a uma ave do tamanho de um falcão real.

Pisquei perplexo, havia realmente alguém na casa.

Aqueles olhos incrivelmente escuros e misteriosos me olhavam como se estivessem dispostos a transportar-me para uma dimensão de mistérios insanos e devassos. Seu conjunto de roupas negras, aparentemente finas e caras, quase faziam com que ele se unisse a escuridão a sua volta e eu sentia que era isso que ele era. A escuridão. Embora estivesse fascinado, olhando-o em minha frente, seus olhos pareciam estar me fitando de todos os ângulos, de todos as direções. Ele tinha tudo o que precisava para me fascinar, mas obrigar-me a observá-lo por horas, mas nada no momento me chamava mais atenção do que o objeto que ele tinha em sua mão direita. O objeto que ele de alguma maneira manipulava sobre os dedos como uma moeda. O crânio que ficava no quarto de Anne.

- Quem é você?

O homem piscou duas vezes e então parou de brincar com o crânio.

- Andriel - respondeu. - E você é o anjo torto que paira por aqui...

Fitei-o curioso e amedrontado.

- Fico feliz que tenha vindo. Menino sensitivo.

- Pare de falar coisas sem sentido - reclamei - o que você está fazendo nessa casa, e que penas são essas espalhadas pelo chão?

- Você só pode ver o que seus olhos querem ver, Savas - um sorriso no canto da boca nasceu em Gregoire.

- Como pode a vida, ser aquilo que eu quero que ela seja? Se eu obtiver controle sobre algo tão sublime, ela perderá totalmente o seu valor.

Ele sorriu com minha resposta.

- Olhe só para você, tão inocente. Tão cheio de fé...

- Engano seu - respondi de imediato - não há fé em mim.

Inesperadamente, uma lufada de vento fez com que as penas se espalhassem por todos os cantos e começassem a cair novamente misturadas com as cinzas que estavam pelo chão. Perdi o foco da visão por um instante e quando notei Andriel estava de pé a não mais do que cinco passos diante de mim.

- É impossível para alguém que nega a sua fé, entrar no reino dos céus, Savas.

- Não me preocupo com o reino dos céus.

Andriel é riu.

- É por isso que você está aqui - disse-me.

S E I S

- Porque está com esse crânio? Onde o pegou? - perguntei observando o objeto.

Andriel olhou para citado em sua mão como se fosse algo extremamente inútil.

- Esse crânio é meu – contestou – que diferença faz onde o encontrei?

Crack! Os ossos se estilhaçaram entre seus dedos e o que sobrou caiu no chão.

- Não precisamos mais disso, não é? – disse rindo.

As penas continuavam a cair lentamente e da mesma maneira como não se aglomeravam no chão, elas não paravam de cair, e as cinzas, elas continuavam a flutuar no ar como se não houvesse gravidade. O perfume no ar, era o perfume que reconheci como sendo de orquídeas roxas. Era forte, inebriante e extremamente sedutor e misterioso. Quando notei, Andriel estava agachado diante de mim, estava tão próximo que seu hábito e seu cheiro eram quase palpáveis. E com sua mão de dedos longos estava tocando o meu rosto e com seus olhos inexpressíveis, capaz de hipnotizar até mesmo à mim, ele disse:

- Não preciso mais desse crânio agora que tenho você. Minha mais incrível aquisição. Nunca tinha conhecido um sensitivo antes.

Em minha mente um alarme soou. Foi como se um prato tivesse sido quebrado no chão, ou um prédio tivesse sido explodido por dinamites potentes. Uma explosão de consciência me tomou e num solavanco acertei o rosto de Andriel com um tapa e isso fez com que ele se afastasse de mim.

- O que pensa que está fazendo, seu estranho? - exclamei um tanto irritado.

Ele se levantou e diferente da expressão contrariada e irritada que achei que ele exibiria, Andriel sorria.

- Agora que tenho você, poderemos fazer muitas coisas juntos!

- Sério? Nem sei quem é você. Não sei o que está fazendo aqui e nem de onde veio, mas se há algo que tenho certeza é que você me dá medo.

- Eu tenho uma concepção diferente do que causa medo. Sou eu quem deve temer você, Savas e não o contrário.

- Chega dessa loucura, vou embora. Retornarei para...

- Você sempre desejou essa casa - disse Andriel me interrompendo - sempre desejou morar aqui, viver aqui e ter tudo o que aqui havia. Esta casa é a que mais se aproxima da realidade louca na qual você desejou viver, Savas. Por que vai embora agora? Por que fica aqui comigo?

- No meio das cinzas? - ironizei.

Derrepente as penas e as cinzas se agitaram e os olhos de Andriel exibiram um vermelho escarlate assustador.

- Diga que ficará comigo e faremos dessa casa um castelo melhor do que lhe parece agora - e então ele me ofereceu um livro, o que fez com que meus olhos brilhassem - uma de suas maiores frustrações era saber que o fogo havia consumido todo o acervo da família Hillebrand. Ainda havia tantas coisas para aprender não é mesmo?

Olhei-o espantado. Era o meu espanto contra aquele sorriso diabólico. Desde o momento que vi que as penas não se acumulavam no chão e nem paravam de cair, desde o momento que notei que Andriel não parecia normal com aqueles olhos vermelhos, deveria ter fugido. Mas porque não o fiz? Andriel me interessava, me interessava mais do que qualquer outra coisa me interessou até agora não havia nada que eu desejasse - tive certeza disso enquanto apalpava o livro e folheava suas tão fascinantes páginas - mais do que ficar com ele.

- Diga que fica - disse ele.

- Basta. Deixe-me em paz!- falei.

Num movimento que meus olhos não puderam acompanhar Andriel se aproximou de mim e assoprou as cinzas que pairavam no ar, em mim. Fechei os olhos com a irritação causada por elas. Desejei xingá-lo e o fiz mentalmente, mas quando abri os olhos, perdi essa vontade. O mais incrível dos milagres parecia ter acontecido diante de meus olhos. A casa dos Hillebrand estava ali, intacta diante de mim com todos os detalhes perfeitos e imperfeitos restaurados de uma maneira inimaginável por mim. Andei por todos os lados procurando algo que me dissesse "sabia que era falso", mas não, a realidade cinzenta e destruída na qual a casa estava mergulha havia desaparecido junto com as penas e com todo o pó.

- Incrível - disse lhe - o que você é? Um espírito? Anne evocou você usando o crânio e um tabuleiro de Ouija não foi?

- Eu... tenho muitos nomes.

Ri debochadamente mas Andriel permanecia com aquele olhar misterioso.

Ele então gesticulou no ar e as janelas do quarto de Anne se abriram. Notei que uma imensa quantidade de luz vinha da rua, e parecia a mesma luz emitida pelo fogo. Isso, parecia que havia chamas lá fora. Andriel pegou e minha mão e acompanhou-me até lá.

A visão era incrível.Uma incrível visão do inacreditável.

Havia cerca de cem pessoas amontoadas como em uma procissão. Estavam sérias e com uma expressão cansada e a maioria delas carregava uma tocha de fogo nas mãos. Reconheci então, logo na fileira da frente as pessoas que socorreram a mim e à Anne no cemitério na noite passada. Reconheci também a Sra. Mali, que... que... havia morrido há pouquíssimo tempo, e reconheci também algumas outras pessoas como... Miranda... Ben... e um homem de bengala que provavelmente seria o pai de Anne.

- São lindos, não? – disse Andriel.

- Onde estou? – perguntei perplexo – sonhando, não é?

- Não mesmo.

- Acha que não sei? Eu sempre soube o que você fez. Sempre te segui porque achei que jamais encontraria uma companhia tão interessante quanto você. O garoto que faz qualquer coisa pelo desejo de companhia.

Afastei-me dele amedrontado.

- Não há remorso em seus olhos, menino.

Ao olhar dele, as janelas se fecharam com um estalo e as cortinas encobriram a luz do que emanava das tochas lá fora.

- Você amava seu pai, não? O brilhante psicólogo Ricardo, especializado em hipnologia. Seu pai, em sua mente era tudo de mais importante que você já prezou na vida mas aí ele se casou novamente. Sua mãe biológica morreu, o parto de gêmeos fora demais para ela não foi?

- CALA A BOCA! – exclamei.

Corri para abrir a porta e sair correndo, mas ela se fechou sozinha e eu não precisei tocá-la para saber que seria impossível passar por ela.

- Suene, tomou o lugar de sua mãe e você se acostumou a chamá-la de mãe mesmo contra a sua vontade, mesmo com ela estando morando a não mais do que três anos com vocês, não é? – Andriel parecia estar gostando de torturar-me com aquelas coisas, parecia um sádico.

- Com o tempo, a atenção de seu pai começou a voltar-se cada vez mais para o trabalho e para a nova esposa, fazendo com que você se sentisse cada vez mais só. Antes, quando você se juntava a seu pai para lamentar a perda de sua mãe você se sentia feliz, mas quando isso se tornou sem sentido você começou a sentir-se vazio não foi? A loucura da solidão começou a dominar sua mente nesse momento. No momento em que você se reaproximou de seu pai e aprendeu com os livros dele a hipnotizar animais. Obviamente a hipnose não é algo que possa ser aprendido por qualquer criancinha com vontade de ler. Você tinha algo especial. Seu poder sensitivo lhe deu essa capacidade, encantar o espírito dentro do corpo dos seres vivos para lhe obedecerem. É um poder incrível não é? Mas é perigoso e eu lembro do que aconteceu ao seu pai. Num acesso de raiva, depois de uma discussão, você usou a hipnose contra ele e mandou que ele se matasse. Ah, assistir aquela cena foi incrível.

Ele sabia, pensei. Ele sabe. Tremi desesperando-me.

- Rick e Suene não eram casados, somente você e seu irmão teriam direto a pensão de seu pai. Para maneirar os gastos sem precisar recorrer ao dinheiro que vocês receberiam, e também por causa do terror de viver na casa onde o marido havia cometido suicídio Suene decidiu se mudar para cá, o interior da cidade. Foi aí que você conheceu Anne. Foi aí que você conheceu uma pessoa que entendia a sua dor, alguém que também sabia como era perder um ente querido. Anne tornou-se sua amiga por motivos egoístas e você descobriu isso lendo o diário dela.

Você a hipnotizou.

A hipnose que você usou em Anne deveria ser mais profunda, pois você queria companhia, uma companhia que dependesse de você, que fosse obsessiva por você e não o contrário como era entre você e seu pai. E assim a menina Anne se transformou em uma boneca em suas mãos. Mas todo o plano pode ter erros e o seu também tinha, não é mesmo Savas? A instabilidade na mente de Anne era muito grande e às vezes seus surtos a obrigavam a fazer coisas que você não previa, não é? Com seu diário, anotando as coisas que fazia e as coisas que aconteciam, Anne começou a notar que havia algo errado com ela e que a culpa provavelmente era sua. Mas você leu o diário dela, não foi? Você a hipnotizou para que ela o entregasse à você e assim soube que ela escreveu sobre tentar convencer o pai dela a ir deixá-la morar com sua tia no centro da cidade e então se desesperou. Primeiro ordenou que ela matasse o pai, mas deu errado e então você teve uma ideia melhor, assassinar toda família e depois usar sua hipnose em Suene para convencer a adotar Anne. Mas as coisas deram errado...

- Anne sabia – balbuciei.

- Óbvio – disse Andriel – À noite, dominada por sua hipnose ela abriu o gás da cozinha e deixou uma vela acesa na sala. Seguindo as ordens postas em sua mente, ela fugiu para sua casa, mas no meio do caminho recobrou a consciência sobre seus pensamentos e fugiu para o cemitério, onde se matou. A concentração do veneno que ela lhe deu foi lento e demorou a fazer efeito. O pudim naquela tarde estava bom, não estava? Curiosamente, você morreu bem ao lado de Anne.

- Ok, mas é impossível para mim estar morto. Hoje acordei em casa, acordei...

- No quarto de seu irmão? Quando você se olhou no espelho não notou muita diferença já que vocês são gêmeos idênticos não é? Gêmeos e seu poder de...

- Sensitividade – conclui – estou no corpo do Breno! Por isso não o vi. Porque sou ele! Suene não estava triste pela morte de Anne, estava triste pela minha morte.

Andriel sorriu. Não havia percebido, mas ele estava lá sentado sobre a cama de Anne com as penas cruzadas e olhando-me maliciosamente.

- Você é a primeira pessoa que conheço que pode me ver, ao invés de só me escutar. Não pude deixar que você morresse, então, encaminhei sua alma até o corpo de seu irmão para que pudéssemos ficar juntos a partir de agora.

Havia acabado. Fui vitima de minha própria armação e provavelmente aquele homem, entidade ou o que quer que fosse cuidaria de me dar-me punições, cuidaria de jogar-me no fogo do inferno, ou sei lá o que mais.

- Você é o diabo? Você vai tomar a minha alma?

- Não preciso tomar o que já é meu não é? Mas eu não sou o diabo. Não, não. Eu sou apenas... o seu desejo de companhia – disse-me olhando daquela maneira ambiciosa.

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